E se o Brasil elegesse o presidente como os EUA?
2026-10-08
Um exercício hipotético: as regras do Colégio Eleitoral americano aplicadas aos votos do 1º turno de 2026 e a três cenários de 2º turno. Não é previsão, nem resultado oficial, nem proposta de mudança.
O Brasil elege o presidente pelo voto direto: vence quem tem mais da metade dos votos válidos do país, em dois turnos se for preciso. Nos Estados Unidos, o eleitor escolhe delegados do seu estado, e o presidente é quem reúne a maioria deles (270 de 538). Para entender o que essa diferença faz com os números, montei uma página que aplica a regra americana aos votos que os brasileiros deram em 4 de outubro de 2026. É uma simulação: os votos teriam sido outros sob outras regras, com outras campanhas, outro voto estratégico e outras candidaturas.
Como a simulação funciona
Cada estado ganha um número de delegados igual à sua bancada de deputados federais mais 3 senadores, o que dá 594 no total (maioria: 298). O Distrito Federal entra com a própria bancada mais os senadores; o exterior vota, mas não elege delegados. Em cada estado, quem tem mais votos leva todos os delegados ("vencedor leva tudo", a regra de quase todos os estados americanos). A página permite trocar para 2 senadores por estado (a regra dos EUA), usar alocação proporcional para comparar e mover uma variação uniforme de votos entre os dois finalistas.
O 1º turno, com a regra americana
Com os votos válidos do 1º turno, Flávio Bolsonaro teve 47,03% e Lula 45,16%. Flávio foi o mais votado em 15 estados e Lula em 12. Pela regra do colégio, os delegados seriam 374 para Flávio (63%) e 220 para Lula (37%). Uma vantagem de 1,87 ponto percentual nos votos viraria uma vantagem de 26 pontos nos delegados. O estado de virada, o que completa a maioria, seria o Distrito Federal (11 delegados), onde Flávio venceu por 233.989 votos.
No sistema que o Brasil de fato usa, ninguém passou de 50%: há 2º turno, em 25 de outubro.
Três efeitos do colégio, com números
Amplia a vantagem de quem lidera. Como o estado conta como bloco, uma margem pequena em muitos estados vira uma margem grande em delegados. Foi o que aconteceu acima, e ocorre nos três cenários de 2º turno abaixo.
Dá peso diferente ao voto de cada estado. Roraima teria 11 delegados para 325.545 votos válidos (29.595 por delegado); São Paulo teria 73 para 24,9 milhões (340.862 por delegado). Nessa conta, o voto em Roraima valeria 11,5 vezes o de São Paulo. Essa distorção já existe na composição da Câmara dos Deputados, que tem piso de 8 e teto de 70 vagas por estado; o colégio a levaria para a eleição presidencial.
Faz estados pequenos e apertados valerem muito. No Amapá, a diferença entre Lula e Flávio foi de 225 votos, e o estado teria definido 11 delegados. Nos EUA, a campanha se concentra justamente nesses estados.
E o 2º turno?
Nos EUA não existe 2º turno, então esta parte é um híbrido que nenhum país usa: o 2º turno brasileiro, contado por estado. Como o 2º turno real ainda não aconteceu, usei três hipóteses de transferência dos votos dos candidatos eliminados (7,8% dos votos válidos), as mesmas do simulador do 2º turno do site Apuração 2026. Em cada uma, uma fração dos votos dos eliminados vai para Lula, outra para Flávio, e o resto não vota em nenhum dos dois. As frações são iguais em todos os estados e os finalistas mantêm todos os votos do 1º turno.
| Cenário | Eliminados → Lula / Flávio | Voto popular (Lula × Flávio) | Delegados (Lula × Flávio) | Variação uniforme para Lula virar: voto popular | Variação uniforme para Lula virar: colégio |
|---|---|---|---|---|---|
| 1º turno real, sem 2º turno | — | 45,2% × 47,0% | 220 × 374 | cerca de 1,0 p.p. | 6,6 p.p. |
| A · eliminados pendem a Flávio | 12,6% / 63,0% | 47,0% × 53,0% | 198 × 396 | 2,9 p.p. | 8,7 p.p. |
| B · cenário base | 21,1% / 52,5% | 47,8% × 52,2% | 209 × 385 | 2,2 p.p. | 8,0 p.p. |
| C · eliminados pendem a Lula | 30,6% / 42,2% | 48,6% × 51,4% | 209 × 385 | 1,4 p.p. | 7,2 p.p. |
Nos três cenários, Flávio vence tanto no voto popular quanto no colégio, e a vantagem em delegados é bem maior que em votos. No cenário B, por exemplo, ele teria 52,2% dos votos dos finalistas e 64,8% dos delegados. Com alocação proporcional dos delegados em cada estado, a mesma votação daria 282 para Lula e 312 para Flávio (52,5%): a diferença vem da regra "vencedor leva tudo", não dos votos.
A distância até a virada muda com a regra
A última coluna da tabela mostra o deslocamento uniforme de votos de Flávio para Lula, igual em todos os estados, que faria Lula vencer. No cenário B, bastariam cerca de 2,2 pontos percentuais para ele passar à frente no voto popular, mas seriam necessários 8,0 para vencer o colégio. Entre 2,2 e 8,0, Lula teria mais votos no país e menos delegados, a situação que nos EUA ocorreu em 1876, 1888, 2000 e 2016 (e em 1824, decidida pela Câmara).
Há uma ressalva importante. O deslocamento uniforme é uma régua, não uma hipótese de comportamento. Uma mudança concentrada nos estados mais apertados custa bem menos: no cenário B, Lula chegaria à maioria de delegados virando AP, MG, TO e RJ (127 delegados), o que exigiria ao menos 1,25 milhão de votos mudando de lado nesses quatro estados, enquanto para passar à frente no voto popular seriam necessários 2,57 milhões em qualquer lugar. Na prática, o que o colégio faz é mudar onde o esforço rende, o que é diferente de favorecer sempre o mesmo lado.
Um teste de limite
E se todos os eleitores dos candidatos eliminados votassem em Lula? A conta é aritmética extrema, não um cenário plausível: ele teria 53,0% dos votos dos finalistas e 276 dos 594 delegados, abaixo da maioria de 298. A razão é geográfica: só Minas Gerais mudaria de lado (220 + 56 = 276 delegados). Em São Paulo, por exemplo, a vantagem de Flávio no 1º turno (3,42 milhões de votos) é maior que o total dos eliminados no estado (2,46 milhões), então nem todos os votos para Lula virariam o estado.
O que esta simulação não é
- Não é previsão nem pesquisa. O 2º turno real é em 25 de outubro, e o resultado prevalece sobre qualquer cenário.
- Não considera mudança de campanha, voto estratégico, número de candidatos, comparecimento diferente entre os turnos, eleitores infiéis, recontagens ou a decisão pela Câmara.
- As frações de transferência são iguais em todos os estados, o que ignora que os eleitores de cada candidato eliminado se concentram em regiões diferentes.
- O número de delegados por estado (bancada federal mais senadores) é uma construção da simulação; nos EUA vem do Censo.
- Também não é argumento a favor ou contra mudar o sistema. Compara duas regras de contagem aplicadas aos mesmos números.
Para explorar: a página Colégio Eleitoral Brasileiro permite trocar o cenário, o número de senadores e a regra de alocação, e mostra os estados mais apertados e o resultado por região. Dados do TSE (resultado final do 1º turno de 04/10/2026, posição de 05/10/2026, 12h51, 100% das seções); contas feitas a partir deles. Veja também o Apuração 2026. Texto de 08/10/2026.
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