Mobilizar a abstenção onde Lula é forte: quanto teria de mudar para fechar 2,2 milhões de votos
2026-10-08
Uma conta de ordem de grandeza sobre comparecimento nos 12 estados em que Lula lidera. Não é previsão: é o tamanho do esforço que a hipótese exigiria.
Flávio Bolsonaro terminou o 1º turno 2.224.965 votos à frente. Em um texto anterior, mostrei que um ponto percentual a mais de comparecimento em todos os estados, com os novos eleitores votando como os que já votaram, favorece Flávio em 34.092 votos líquidos, porque a maior parte dos ausentes está onde ele já lidera. A pergunta que sobra é outra: e se a mobilização fosse dirigida só aos estados em que Lula tem maioria? Quanto teria de subir o comparecimento ali para fechar a diferença sozinha?
A conta
Lula lidera em 12 estados (AL, AP, AM, BA, CE, MA, PA, PB, PE, PI, RN e SE). Neles, cada ponto percentual de comparecimento a mais, com os novos votantes repetindo a divisão local, rende um saldo líquido para Lula. Somando os 12 e dividindo a diferença nacional por esse saldo, o aumento necessário é de 15,9 pontos percentuais. Isso significa 8,44 milhões de novos votantes, ou 86% de todos os abstentos desses estados (9,86 milhões). O comparecimento deles iria de cerca de 81,4% para cerca de 97,3%.
O teto
Mesmo que todos os 9,86 milhões de abstentos dos 12 estados votassem, repetindo a divisão local entre Lula e Flávio, o saldo líquido máximo seria de 2,577 milhões. É só 16% acima da diferença a fechar. A margem de manobra, portanto, é mínima: a hipótese pede um comparecimento de cerca de 97%, muito acima do melhor do 1º turno, o do Ceará, de cerca de 84,5%.
| Estado | Abstentos | Saldo líquido máximo para Lula |
|---|---|---|
| Bahia | 2.259.151 | 804.034 |
| Pernambuco | 1.312.388 | 403.177 |
| Ceará | 1.086.074 | 330.466 |
| Maranhão | 1.022.772 | 326.292 |
| Piauí | 463.875 | 208.389 |
| Paraíba | 564.543 | 149.287 |
Bahia, Pernambuco, Ceará e Maranhão respondem por 1,86 milhão dos 2,58 milhões do teto (72%). Pará, com 1,2 milhão de abstentos, rende só 62 mil, porque a vantagem de Lula ali é pequena: abstentos numerosos não bastam, é preciso que a maioria local seja ampla.
O outro lado do espelho
A mesma conta serve para Flávio. Nos 15 estados em que ele lidera, há 23,0 milhões de abstentos (22,0% do eleitorado, contra 18,6% nos estados de Lula), e o teto de saldo líquido para ele é de 3,75 milhões. A assimetria vem da geografia: os ausentes são mais numerosos justamente onde a maioria é dele.
Limites: o modelo supõe que os novos votantes se dividem como os que já votaram no estado, quando quem se abstém pode ter outro perfil; ignora a transferência dos eliminados e o efeito de campanha. O que a conta mostra é a ordem de grandeza, e ela sugere que a mobilização isolada não seria o caminho principal de uma virada. Os controles de comparecimento do simulador permitem testar outras hipóteses.
Para explorar os números: a página Participação do site Apuração 2026 traz as tabelas completas, gráficos e controles. Dados do TSE (resultado do 1º turno de 04/10/2026, 100% das seções); análises calculadas a partir deles. Texto de 08/10/2026.
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