sexta-feira, 9 de outubro de 2026

O que o Titanic ensina sobre dados (e sobre modelos que parecem melhores do que são)

O que o Titanic ensina sobre dados (e sobre modelos que parecem melhores do que são)

O que o Titanic ensina sobre dados (e sobre modelos que parecem melhores do que são)

2026-10-09

Quem começa em ciência de dados quase sempre passa pelo Titanic. Abre o arquivo, treina um algoritmo, obtém uns 80% de acerto e segue em frente. Eu preparei um material para a pergunta que fica no ar depois disso: o que esses 80% significam, e o que eles não dizem?

O resultado é um conjunto de três peças abertas, em português, para aula e estudo individual: uma página com o código e os resultados comentados, um notebook Python que reproduz tudo e um artigo que liga cada passo à teoria. Os links estão no fim do texto; antes, vale contar o que os dados mostram.

O desafio do Kaggle

O Titanic: Machine Learning from Disaster é a competição de entrada do Kaggle, a plataforma de desafios de ciência de dados. Cada participante recebe 891 passageiros com o desfecho conhecido (sobreviveu ou não) e deve prever o desfecho de outros 418. A base é pequena o bastante para ser lida linha a linha e, ao mesmo tempo, traz quase todos os problemas de um projeto real: dados ausentes (a idade falta em 20% dos casos e a cabine em 77%), texto no nome e no bilhete, variáveis numéricas e categóricas misturadas e relações que só aparecem quando se cruzam duas variáveis.

Quatro coisas que os dados mostram

1. O sexo pesou mais que tudo. Das 314 mulheres do arquivo, 74,2% sobreviveram; dos 577 homens, 18,9%. A razão de chances bruta é 12,4 (intervalo de confiança de 95%: 8,9 a 17,1).

2. A classe mudou o tamanho desse efeito. Entre as mulheres, sobreviveram 97% na 1ª classe, 92% na 2ª e 50% na 3ª. Entre os homens, 37%, 16% e 14%. O teste de interação entre sexo e classe tem χ²(2) = 32,7 (p < 0,001): a vantagem de ser mulher não foi a mesma em todos os convés.

Taxa de sobrevivência por sexo e classe, e número de passageiros em cada célula
Taxa de sobrevivência por sexo e classe (esquerda) e número de passageiros por célula (direita).

3. O porto de embarque era, em boa parte, a classe disfarçada. Quem embarcou em Cherbourg sobreviveu mais que quem embarcou em Southampton (razão de chances 2,44). Mas 51% dos passageiros de Cherbourg viajavam na 1ª classe, contra 20% em Southampton. Ao controlar classe e sexo, a razão cai para 1,81; no modelo completo, para 1,36 (p = 0,21). A associação bruta enganava sobre a causa, e esse é um bom exemplo de confusão para a sala de aula.

4. Modelos sofisticados quase não superam uma regra de uma linha. Em validação cruzada, cinco classificadores (regressão logística, KNN, SVM, floresta aleatória e gradient boosting) ficaram entre 81,1% e 83,2% de acurácia. A regra "mulher sobrevive, homem morre" acerta 78,7% do arquivo. No conjunto de teste, com 179 passageiros, a diferença entre o modelo escolhido e essa regra não foi estatisticamente distinguível (McNemar exato, p = 0,44). O recado é medir sempre contra uma linha de base e informar a incerteza: com um teste tão pequeno, 1 acerto a mais muda a acurácia em 0,56 ponto percentual.

O que há no repositório

Tudo está em um repositório aberto, com licença MIT para o código e CC BY 4.0 para textos e figuras:

Como usar

Na aula, a página pode ser apresentada de cima para baixo. Depois, o aluno copia as caixas de código na ordem para um notebook vazio (ou usa o botão "Copiar todo o código") e reproduz os mesmos resultados, já que a semente aleatória é fixa. A página traz ainda seis exercícios, como comparar estratégias de imputação da idade ou provocar um vazamento de dados de propósito para ver o que acontece.

Limites

São 891 passageiros de um navio com cerca de 2.200 pessoas, e os números descrevem associações, não causas. A ausência de idade e de cabine tem relação com a classe, e a imputação por título e classe reduz a variância da idade (o desvio-padrão cai de 14,5 para 13,5). Os modelos preditivos esbarram num teto de acurácia perto de 83%, e o que falta explicar (posição no navio, acesso aos botes, decisões individuais) não está no arquivo.

Se você usar o material em aula, vou gostar de saber como foi. Sugestões e correções entram pelas issues do repositório.

Como citar: COIMBRA, Paulo C. Titanic: da análise exploratória à predição de sobrevivência: material didático (página de aula, notebook e artigo). Juiz de Fora: UFJF, 2026. Disponível em: https://github.com/pauloccoimbra/titanic-eda-ml-aula.

Material elaborado com assistência de IA (Claude, da Anthropic) e revisado pelo autor.

Pesquisas do 2º turno em um só lugar: linha do tempo, projeção e a metodologia de cada pesquisa

Pesquisas do 2º turno em um só lugar: linha do tempo, projeção e a metodologia de cada pesquisa

Pesquisas do 2º turno em um só lugar: linha do tempo, projeção e a metodologia de cada pesquisa

2026-10-09

A partir de 4/10, quase todo dia sai uma pesquisa nova para o 2º turno. Cada uma vem de um instituto, com amostra, método de coleta e margem de erro próprios, e chega ao leitor como um número solto. Publiquei uma página que junta essas pesquisas e mostra o que elas dizem em conjunto: pauloccoimbra.github.io/pesquisas-eleitorais.

Por que reunir as pesquisas

Uma pesquisa isolada carrega o erro amostral e o jeito de cada instituto. A média de várias reduz parte do ruído, desde que os pesos sejam conhecidos e possam ser questionados. Por isso a página mostra os pesos e deixa o leitor mexer neles.

O que a página faz

  • Linha do tempo. Cada pesquisa aparece como um ponto, com sua margem de erro, e a projeção para 25/10 é refeita a cada dia.
  • Filtros. Dá para ligar e desligar institutos, escolher o período de campo, definir uma amostra mínima, separar por método (presencial, internet, telefone) ou ficar só com as feitas depois do 1º turno. Há um atalho para as pesquisas mais aguardadas pelo mercado e a opção de desmarcar levantamentos um a um.
  • Projeção como em. Uma barra de data mostra o que as pesquisas indicavam em cada dia, usando só o que já tinha sido divulgado até ali.
  • Aba Metodologia. O leitor escolhe o instituto e a data da pesquisa e recebe a ficha: contratante, registro no TSE, amostra, margem de erro, forma de coleta, ponderação, ressalvas e links. O que as fontes não informam aparece como "não informado".
  • Atualização. A página confere a lista de pesquisas a cada 5 minutos. As incluídas por rotina automática levam o selo "automática" até serem revisadas, e há um filtro para deixá-las de fora da conta.

Como a página trata os dois candidatos

Flávio Bolsonaro e Lula aparecem em ordem alfabética, com o mesmo destaque e sem cores partidárias. Cada pesquisa vira a participação de cada um entre os dois, e a chance de vitória é mostrada para os dois lados.

Há uma escolha de modelagem que merece atenção. Nas últimas pesquisas de véspera do 1º turno, seis de sete institutos deram a Lula uma margem maior do que a das urnas (47,03% para Flávio e 45,16% para Lula nos válidos). Corrigir as pesquisas por esse erro supõe que ele se repete no 2º turno, o que é uma hipótese. Por isso a correção vem desligada e o resultado com ela aparece como cenário, ao lado da estimativa principal.

O que ela mostra em 9/10

Com as pesquisas selecionadas até agora, a média ponderada é de 50,6% para Flávio e 49,4% para Lula entre os dois candidatos. O intervalo de 90% vai de 46,7% a 54,5% para Flávio, e o modelo atribui 61% de chance de vitória a Flávio e 39% a Lula. Com a correção de 50% pelo erro do 1º turno, o cenário seria 51,5% e 48,5%. Em outras palavras, o modelo não separa os dois. Esses números mudam a cada pesquisa nova, e vale o que a página mostrar quando você abri-la.

As duas mais recentes na base são a do Datafolha, de 6 e 7/10 (Flávio 49%, Lula 45%), e a do Poder/Aya, de 5 a 7/10 (Flávio 53%, Lula 47% nos votos válidos). Os percentuais não são comparáveis diretamente, porque um é sobre o total de entrevistados e o outro só sobre os válidos. A página converte todos para a mesma medida.

O que a página não é

Pesquisa mede a opinião no período de campo e não prevê o resultado. O intervalo inclui o erro amostral, um erro sistemático dos institutos e a mudança da opinião até o dia 25, mas não cobre tudo: comparecimento, abstenção e fatos novos ficam de fora. Os dados vêm de reportagens e relatórios, e não do sistema de registro do TSE, então confira cada resultado no registro antes de citar. A Veritá ficou fora da base porque suas rodadas nacionais não informam o método de coleta e os dados de registro divergem entre as republicações; a aba Metodologia explica o caso. Qualquer pesquisa pode ser acrescentada pelo leitor, só para teste, em formulário próprio.

Como usar em três passos

  1. Abra a página e leia o painel da projeção, com os dois candidatos lado a lado.
  2. Em "Quais pesquisas entram", filtre do jeito que achar mais razoável e veja a projeção mudar.
  3. Na aba Metodologia, escolha um instituto e uma data para ver como aquela pesquisa foi feita.

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

E se o Brasil elegesse o presidente como os EUA?

E se o Brasil elegesse o presidente como os EUA?

E se o Brasil elegesse o presidente como os EUA?

2026-10-08

Um exercício hipotético: as regras do Colégio Eleitoral americano aplicadas aos votos do 1º turno de 2026 e a três cenários de 2º turno. Não é previsão, nem resultado oficial, nem proposta de mudança.

O Brasil elege o presidente pelo voto direto: vence quem tem mais da metade dos votos válidos do país, em dois turnos se for preciso. Nos Estados Unidos, o eleitor escolhe delegados do seu estado, e o presidente é quem reúne a maioria deles (270 de 538). Para entender o que essa diferença faz com os números, montei uma página que aplica a regra americana aos votos que os brasileiros deram em 4 de outubro de 2026. É uma simulação: os votos teriam sido outros sob outras regras, com outras campanhas, outro voto estratégico e outras candidaturas.

Votos sub judice e uma diferença de 375.575: como conferi os números do site com os arquivos do TSE

Votos sub judice e uma diferença de 375.575: como conferi os números do site com os arquivos do TSE

Votos sub judice e uma diferença de 375.575: como conferi os números do site com os arquivos do TSE

2026-10-08

Bastidores da checagem: uma discrepância que apareceu, de onde vinha, e o que "sub judice" muda nos percentuais.

Ao somar os votos de todos os partidos na Câmara, cheguei a 114.053.594. O total de votos válidos de deputado federal nos arquivos do TSE é 113.678.019. A diferença, de 375.575 votos, não é erro de conta, e o motivo ilustra algo que costuma passar despercebido nas apurações: o voto sub judice.

O que é voto sub judice

É o voto dado a um candidato cujo registro de candidatura ainda está sendo discutido na Justiça Eleitoral. O TSE o contabiliza separadamente (nos arquivos, "Anulado sub judice") e ele não entra nos votos válidos, que são a base dos percentuais. Se a decisão final aceitar o registro, os votos passam a valer; se rejeitar, são anulados. Até lá, os percentuais podem mudar.

Onde isso aparece

  • Deputado federal: 375.575 votos (0,33% dos válidos) distribuídos por 24 partidos; nenhum candidato com esses votos foi eleito. Somando-os aos válidos, a conta dos partidos fecha exatamente: 113.678.019 + 375.575 = 114.053.594.
  • Governador do Rio de Janeiro: 274.411 votos de Garotinho estão sub judice.
  • Governador do Distrito Federal: 1.843 votos de dois candidatos.

Nos dois governos estaduais, uma decisão da Justiça Eleitoral pode alterar percentuais, o que importa para quem observa a disputa do segundo turno. No Rio, onde 274 mil votos é um número grande, a atenção é maior.

As outras conferências

O site compara, ao abrir cada página, a soma dos 27 estados e do exterior com o total oficial: comparecimento (125.275.835), eleitorado (158.745.502) e abstenção (33.469.667, ou 21,08%) conferem. Duas pequenas diferenças são conhecidas e documentadas: o comparecimento oficial é 5.246 votos (0,004%) maior do que votos nominais, brancos e nulos somados, porque o TSE não classifica esses votos nos arquivos; e, no exterior, a abstenção informada difere em 423 da diferença entre eleitorado e comparecimento, caso em que o site usa a diferença.

Uma lição prática: quando duas fontes do mesmo órgão não fecham, o primeiro passo é procurar uma regra de classificação que explique a diferença, antes de supor erro. Aqui, a regra explicava tudo: 375.575 votos que não são "válidos" nem "nulos" definitivos. Os números por unidade (28) também foram conferidos contra os arquivos públicos do TSE em 08/10/2026.


Para explorar os números: a página Síntese (qualidade dos dados e glossário) do site Apuração 2026 traz as tabelas completas, gráficos e controles. Dados do TSE (resultado do 1º turno de 04/10/2026, 100% das seções); análises calculadas a partir deles. Texto de 08/10/2026.

Mobilizar a abstenção onde Lula é forte: quanto teria de mudar para fechar 2,2 milhões de votos

Mobilizar a abstenção onde Lula é forte: quanto teria de mudar para fechar 2,2 milhões de votos

Mobilizar a abstenção onde Lula é forte: quanto teria de mudar para fechar 2,2 milhões de votos

2026-10-08

Uma conta de ordem de grandeza sobre comparecimento nos 12 estados em que Lula lidera. Não é previsão: é o tamanho do esforço que a hipótese exigiria.

Flávio Bolsonaro terminou o 1º turno 2.224.965 votos à frente. Em um texto anterior, mostrei que um ponto percentual a mais de comparecimento em todos os estados, com os novos eleitores votando como os que já votaram, favorece Flávio em 34.092 votos líquidos, porque a maior parte dos ausentes está onde ele já lidera. A pergunta que sobra é outra: e se a mobilização fosse dirigida só aos estados em que Lula tem maioria? Quanto teria de subir o comparecimento ali para fechar a diferença sozinha?

A conta

Lula lidera em 12 estados (AL, AP, AM, BA, CE, MA, PA, PB, PE, PI, RN e SE). Neles, cada ponto percentual de comparecimento a mais, com os novos votantes repetindo a divisão local, rende um saldo líquido para Lula. Somando os 12 e dividindo a diferença nacional por esse saldo, o aumento necessário é de 15,9 pontos percentuais. Isso significa 8,44 milhões de novos votantes, ou 86% de todos os abstentos desses estados (9,86 milhões). O comparecimento deles iria de cerca de 81,4% para cerca de 97,3%.

O teto

Mesmo que todos os 9,86 milhões de abstentos dos 12 estados votassem, repetindo a divisão local entre Lula e Flávio, o saldo líquido máximo seria de 2,577 milhões. É só 16% acima da diferença a fechar. A margem de manobra, portanto, é mínima: a hipótese pede um comparecimento de cerca de 97%, muito acima do melhor do 1º turno, o do Ceará, de cerca de 84,5%.

EstadoAbstentosSaldo líquido máximo para Lula
Bahia2.259.151804.034
Pernambuco1.312.388403.177
Ceará1.086.074330.466
Maranhão1.022.772326.292
Piauí463.875208.389
Paraíba564.543149.287

Bahia, Pernambuco, Ceará e Maranhão respondem por 1,86 milhão dos 2,58 milhões do teto (72%). Pará, com 1,2 milhão de abstentos, rende só 62 mil, porque a vantagem de Lula ali é pequena: abstentos numerosos não bastam, é preciso que a maioria local seja ampla.

O outro lado do espelho

A mesma conta serve para Flávio. Nos 15 estados em que ele lidera, há 23,0 milhões de abstentos (22,0% do eleitorado, contra 18,6% nos estados de Lula), e o teto de saldo líquido para ele é de 3,75 milhões. A assimetria vem da geografia: os ausentes são mais numerosos justamente onde a maioria é dele.

Limites: o modelo supõe que os novos votantes se dividem como os que já votaram no estado, quando quem se abstém pode ter outro perfil; ignora a transferência dos eliminados e o efeito de campanha. O que a conta mostra é a ordem de grandeza, e ela sugere que a mobilização isolada não seria o caminho principal de uma virada. Os controles de comparecimento do simulador permitem testar outras hipóteses.


Para explorar os números: a página Participação do site Apuração 2026 traz as tabelas completas, gráficos e controles. Dados do TSE (resultado do 1º turno de 04/10/2026, 100% das seções); análises calculadas a partir deles. Texto de 08/10/2026.

Lula saiu na frente, Flávio chegou a 50% e a margem caiu pela metade: a noite da apuração de 4 de outubro

Lula saiu na frente, Flávio chegou a 50% e a margem caiu pela metade: a noite da apuração de 4 de outubro

Lula saiu na frente, Flávio chegou a 50% e a margem caiu pela metade: a noite da apuração de 4 de outubro

2026-10-08

Reconstituição do que os números do 1º turno mostravam a cada hora, a partir do horário de totalização de cada seção. É um modelo, não a tela do TSE minuto a minuto.

Quem acompanhou a apuração do 1º turno viu a margem de Flávio Bolsonaro encolher ao longo da noite: de 7,8 pontos percentuais no começo para 1,87 no resultado final. Não houve virada, mas o gráfico não ficou parado. O TSE não publica o histórico minuto a minuto; o que existe é o horário em que cada seção foi totalizada, registrado nos arquivos de configuração. Com esses horários, mais os votos finais de cada estado, dá para reconstituir a curva. A premissa é forte: dentro de cada estado, as seções apuram sem viés de perfil, ou seja, o voto de uma seção "média" aparece em qualquer ordem.

Como a noite andou

Dos 28 conjuntos (27 estados e o exterior), 16 têm horários reais capturados às 22h20; os outros 12 foram estimados com a curva dos primeiros. A série termina nos votos registrados às 22h20, que diferem do resultado final por poucos centésimos de ponto percentual.

HoraSeções totalizadasFlávioLulaDiferença (p.p.)
17h020,2%43,5%47,5%Lula +4,0
17h241,3%50,1%42,2%Flávio +7,8
18h0011,7%48,4%43,9%Flávio +4,5
19h0056,4%48,3%43,7%Flávio +4,6
19h3082,4%47,9%44,2%Flávio +3,7
20h0084,2%47,8%44,2%Flávio +3,6
21h0098,1%47,2%45,0%Flávio +2,2
22h2099,9%47,1%45,1%Flávio +1,9

Nos primeiros minutos só há seções do exterior e de poucos estados, e Lula aparece à frente. Às 17h12 Flávio assume a liderança e, por volta das 17h24, chega a 50,1%, o pico da noite, com apenas 1,3% das seções. Isso é amostra minúscula de estados pequenos, não sinal do que viria.

Por que a margem caiu

Entre 18h e 19h, quando a apuração foi de 12% a 56% das seções, a diferença ficou estável entre 4,4 e 4,7 pontos. A queda aparece depois, quando entram os estados lentos. Os seis mais lentos para chegar a 50% das seções foram Alagoas (19h22), Bahia e Ceará (19h12), Rio de Janeiro (19h10), Pernambuco (19h06) e Maranhão (19h02). Cinco deles são do Nordeste, onde Lula fez 63,8% dos válidos. Já Paraná (18h14), Paraíba (18h16), Acre (estimado, 18h26), Amazonas (18h36) e Goiás (18h38) estavam entre os mais rápidos.

O ritmo nacional fica assim: 25% das seções às 18h24, 50% às 18h56, 75% às 19h18, 90% às 20h26 e 99% às 21h16. O registro de totalizações tem uma pausa entre 19h32 e 19h59, que se vê no patamar da curva nesse intervalo.

O que isso ensina

A leitura parcial de uma apuração depende de quais seções já chegaram, não só de quantas. Com 56% das seções a margem parecia de 4,6 pontos; o país terminou em 1,9. O erro do olhar apressado é tratar a ordem de chegada como se fosse aleatória entre estados. O simulador de trocas do site permite testar isso: e se Bahia e Paraná apurassem na velocidade um do outro? Os votos finais não mudam, mas a curva sim.


Para explorar os números: a página Evolução da apuração do site Apuração 2026 traz as tabelas completas, gráficos e controles. Dados do TSE (resultado do 1º turno de 04/10/2026, 100% das seções); análises calculadas a partir deles. Texto de 08/10/2026.

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Assembleias estaduais: onde o governador tem base própria e onde depende do centro

Assembleias estaduais: onde o governador tem base própria e onde depende do centro

Assembleias estaduais: onde o governador tem base própria e onde depende do centro

2026-10-07

Os 1.059 deputados estaduais eleitos em 2026, por espectro, e a relação de cada assembleia com o governador eleito ou líder do 2º turno.

Os 27 estados (incluindo o Distrito Federal, com deputados distritais) elegeram 1.059 deputados estaduais. Pela classificação padrão, a direita tem 474 cadeiras (44,8%), o centro 321 (30,3%) e a esquerda 264 (24,9%). O PL é o maior partido, com 212 deputados (20,0%) presente em 26 estados (só o Piauí não tem), seguido pelo PT (141, em 24 estados), pelo MDB (112, em 25) e pelo PSD (103, em 21).

Mais ao centro do que a Câmara

Na Câmara dos Deputados, a direita tem 51,7% das cadeiras, o centro 24,2% e a esquerda 24,2%. Nas assembleias, o centro é cerca de seis pontos maior (30,3%) e a direita sete pontos menor. Nos estados, a distância entre a assembleia e a bancada federal é, em média, de 9 pontos percentuais a menos de direita. As maiores diferenças estão em Mato Grosso (42% na assembleia contra 75% na bancada federal), Amazonas (38% contra 62%) e Mato Grosso do Sul (63% contra 88%). Só três estados têm mais direita na assembleia do que na bancada federal: Pará (34% contra 24%), Rondônia (67% contra 63%) e Rio de Janeiro (51% contra 50%). Uma hipótese é que partidos de centro, como MDB e PSD, sejam mais fortes em disputas locais, e que os votos de alguns candidatos federais muito votados favoreçam o PL na eleição federal; os dados não testam isso.

Poucas maiorias claras

A direita tem maioria absoluta sozinha em nove assembleias (RJ, RR, TO, MS, RN, AC, SC, PB e RO) e a esquerda em uma (CE) e o centro em três (AL, AM e PA). Em 14 dos 27 estados nenhum bloco chega à metade. A fragmentação varia muito: o número efetivo de partidos vai de 2,9 em Alagoas, onde o MDB tem 15 das 27 cadeiras, a 11,3 em Goiás.

O governador e a assembleia

Em 24 dos 27 estados, o espectro do partido do governador (eleito ou líder do 2º turno) é o maior da casa; em 11, o partido dele tem a maior bancada. Em 13 estados, o espectro do partido do governador tem maioria absoluta sozinho. Contando só os partidos do mesmo bloco, o governador tem base suficiente para barrar uma PEC estadual (3/5) em 24 estados e para barrar um processo de impeachment (2/3) em 25. Nos que ficam de fora, Amapá e Sergipe nos dois casos e Pernambuco só no 3/5, a oposição alcançaria os limiares sozinha.

O resultado é uma aproximação, e vale destacar onde ela falha. Em Alagoas, JHC (PSDB) tem apenas 2 deputados do próprio partido; o MDB, partido do segundo colocado na eleição para governador, Renan Filho, tem 15 de 27. O centro soma 17 cadeiras, mas 15 são do MDB, o partido que foi adversário na eleição. No Maranhão, Eduardo Braide (PSD) tem 4 deputados do partido, e o MDB, de seu principal rival, 17 de 42. Em São Paulo, Tarcísio (Republicanos) tem 6 deputados do partido numa casa de 94, em que o PL tem 27. A coligação do governador, que não está nos dados, é o dado que falta.

O papel da assembleia

A assembleia aprova as leis estaduais e emendas à constituição do estado, vota o orçamento (de iniciativa do governador), fiscaliza o Executivo, pode instalar CPI com um terço das assinaturas e escolhe parte dos conselheiros do tribunal de contas. Em crime de responsabilidade, ela decide se admite o processo contra o governador, em geral por dois terços; o julgamento cabe a um tribunal misto de cinco deputados e cinco desembargadores, e a condenação exige dois terços dos membros (Lei 1.079/1950). O governador pode vetar projetos, mas a assembleia derruba o veto, em geral, por maioria absoluta. Os quóruns variam por estado; a página mostra, para cada assembleia, os números a partir do tamanho da casa.

Os mais votados

A deputada estadual mais votada do país é Eduarda Campopiano (PL, SP), com 1.956.238 votos, bem à frente de Bruno Engler (PL, MG), com 675.940, e de Eduardo Suplicy (PT, SP), com 654.627.


Para explorar os números: a página Assembleias do site Apuração 2026 traz as tabelas completas, gráficos e controles. Dados do TSE (resultado do 1º turno de 04/10/2026, 100% das seções); análises calculadas a partir deles. Texto de 07/10/2026.

O Nordeste votou 64% em Lula, mas elegeu mais deputados de direita: o mapa das bancadas

O Nordeste votou 64% em Lula, mas elegeu mais deputados de direita: o mapa das bancadas

O Nordeste votou 64% em Lula, mas elegeu mais deputados de direita: o mapa das bancadas

2026-10-07

A distribuição dos 594 parlamentares por estado, e o descompasso entre o voto presidencial e a bancada federal em várias regiões.

A página Bancadas organiza os 594 parlamentares por estado e por espectro. O mapa colore cada estado pelo bloco com mais cadeiras. Com a classificação padrão, a direita é o maior bloco na bancada de deputados federais em 23 dos 27 estados; o centro lidera em Alagoas e no Pará; Pernambuco (direita e esquerda) e Piauí (centro e esquerda) empatam; a esquerda não lidera sozinha em nenhum.

O descompasso do Nordeste

No Nordeste, Lula teve 63,8% dos votos válidos para presidente e Flávio, 30,9%. A bancada de deputados federais da região tem 151 cadeiras: 65 de direita (43,0%), 44 de centro (29,1%) e 42 de esquerda (27,8%). A esquerda tem mais do que o PT sozinho (20 deputados no Nordeste, de 70 no país), mas bem menos do que o voto presidencial sugeriria.

RegiãoDeputadosDireitaCentroEsquerda
Norte6555,4%33,8%10,8%
Nordeste15143,0%29,1%27,8%
Centro-Oeste4165,9%17,1%17,1%
Sudeste17952,5%19,0%28,5%
Sul7755,8%22,1%22,1%

Há explicações possíveis para isso, e elas não são mutuamente exclusivas: o voto presidencial e o voto para deputado seguem lógicas diferentes; partidos de centro e de direita, como PSD, MDB e União, são fortes em muitos estados do Nordeste; e o sistema proporcional de lista aberta não converte votos presidenciais em cadeiras. O descompasso é um fato dos números; o mecanismo, não está provado por eles.

No Senado, a região pende para o outro lado

As 27 cadeiras do Nordeste no Senado se dividem em 12 de esquerda, 9 de centro e 6 de direita. Cada estado tem três senadores (dois eleitos em 2026 e um em 2022). Em Bahia, Ceará e Pernambuco, a esquerda é o maior bloco entre os senadores.

Onde o bloco domina a bancada

A direita tem 88% da bancada de Mato Grosso do Sul e 75% das de Acre, Mato Grosso, Roraima e Tocantins. No outro extremo, o Piauí tem apenas 20% de deputados de direita e o Pará, 24%. No Senado, a direita é o maior bloco em 16 estados, e em 14 deles os três senadores são do mesmo bloco.

Os mais votados

Nikolas Ferreira (PL, MG) foi o deputado mais votado, com 3.119.318 votos, seguido de Lucas Pavanato (PL, SP), com 3.038.438, e Erika Hilton (PSOL, SP), com 1.596.472. No Senado, Guilherme Derrite (PP) teve 13.273.880 votos e André do Prado (PL), 12.703.089, ambos em São Paulo; como cada eleitor vota em até dois candidatos, esses totais não se comparam com os dos deputados. São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro elegem juntos 169 deputados federais, um terço da Câmara (32,9%).

Como explorar

A página tem um mapa clicável, o detalhe de cada estado (bancada por partido, senadores e deputados mais votados), uma tabela com todos os estados e uma lista pesquisável dos 594 parlamentares, por nome, partido, estado ou espectro. A classificação por espectro é a mesma da página Congresso e pode ser alterada por quem usa.


Para explorar os números: a página Bancadas do site Apuração 2026 traz as tabelas completas, gráficos e controles. Dados do TSE (resultado do 1º turno de 04/10/2026, 100% das seções); análises calculadas a partir deles. Texto de 07/10/2026.

Congresso 2027: o que a direita tem sozinha, e o que ela não tem

Congresso 2027: o que a direita tem sozinha, e o que ela não tem

Congresso 2027: o que a direita tem sozinha, e o que ela não tem

2026-10-07

A composição do Senado e da Câmara por espectro e os votos que cada tipo de decisão exige.

O Congresso de 2027 terá 594 parlamentares: 81 senadores (54 eleitos em 2026 e 27 com mandato até 2031) e 513 deputados. Agrupando por partido em direita, centro e esquerda, o Senado fica em 48, 17 e 15 cadeiras, com uma sem partido; a Câmara, em 265, 124 e 124. A classificação é de trabalho, por partido, e pode ser alterada na página (PL, PP, União, Republicanos, Novo, PRD e Missão na direita; PSD, MDB, Podemos, PSDB, Avante e Solidariedade no centro; PT, PSB, PSOL, PCdoB, PV, PDT e Rede na esquerda).

A composição

O PL é o maior partido nas duas Casas: 121 deputados (23,6%) e 28 senadores (34,6%). O número efetivo de partidos é 8,8 na Câmara e 6,0 no Senado. Na Câmara, PL, PT e União somam 46,2% das cadeiras e, mesmo assim, o sistema é fragmentado.

O que cada votação exige

VotaçãoCâmaraSenadoBase
Maioria absoluta (lei complementar, rejeição de veto, aprovação de ministro do STF e PGR)25741CF arts. 69, 66 §4, 101, 128
Instalação de CPI (1/3)17127CF art. 58 §3
PEC (3/5, dois turnos)30849CF art. 60 §2
Impeachment do presidente: autorização na Câmara (2/3)342–CF art. 51, I
Condenação no Senado, do presidente ou de ministro do STF (2/3)–54CF art. 52, I e II

Projetos de lei ordinários passam por maioria simples dos presentes: com a Casa cheia, 257 deputados e 41 senadores; com o quórum mínimo de presença, 129 e 21. O veto presidencial só é derrubado se 257 deputados e 41 senadores votarem pela rejeição, e a maioria é contada em cada Casa separadamente: o Senado, com 13,6% dos parlamentares, pesa tanto quanto a Câmara nesse caso.

O que a direita tem sozinha

Com a classificação padrão, a direita atinge a maioria absoluta nas duas Casas sem os outros blocos: 265 de 257 na Câmara (8 acima) e 48 de 41 no Senado (7 acima). É o único bloco que, sozinho, chega à maioria absoluta nas duas Casas (e, portanto, derruba veto sem ajuda). Mas fica abaixo dos limiares mais altos: na Câmara, faltam 43 votos para uma PEC (308) e 77 para autorizar impeachment (342); no Senado, falta 1 voto para uma PEC (49) e 6 para condenar (54).

O que depende do centro

Direita e centro somam 389 deputados e 65 senadores, o suficiente para qualquer das votações acima. Centro e esquerda juntos somam 248 deputados e 32 senadores: não chegam à maioria absoluta em nenhuma Casa, mas conseguem barrar emendas constitucionais na Câmara (para barrar 3/5 de 513 bastam 206 votos). No Senado, barrar uma PEC exige 33 votos (81 − 49 + 1), e centro e esquerda têm 32: faltaria um, e a cadeira sem partido ficaria de fora da soma. Já para impedir uma condenação por 2/3 no Senado bastam 28 votos, e os 32 bastam.

Quem é o parlamentar do meio

Ordenando os partidos da esquerda para a direita, o 41º assento do Senado está no PP e o 257º da Câmara, no União. Como medida de posição, essa mediana depende da ordem adotada e de supor que as votações se alinham numa única dimensão, uma hipótese forte. Serve como ponto de referência, não como previsão.

O efeito dos senadores que viram governadores

Moro (PL) e Cleitinho (Republicanos) deixam o Senado ao assumir os governos do Paraná e de Minas Gerais, e Dorinha (União) também sairia se vencesse em Tocantins. O número de cadeiras não muda, mas se as três saíssem do bloco da direita, ele cairia de 48 para 45, ainda acima da maioria absoluta (41) e mais longe da PEC (49). Os dados usados não informam o partido dos suplentes.

Limites

É aritmética de cadeiras: ignora ausências, trocas de partido, liderança de governo, emendas e a dinâmica de cada votação. Dentro de cada partido há parlamentares em posições diferentes, e partidos de blocos distintos governam juntos. O site tem um montador de coalizões: marque os partidos que quiser e veja quanto falta a cada limiar.


Para explorar os números: a página Maiorias (e a página Congresso) do site Apuração 2026 traz as tabelas completas, gráficos e controles. Dados do TSE (resultado do 1º turno de 04/10/2026, 100% das seções); análises calculadas a partir deles. Texto de 07/10/2026.

Vinte governadores definidos, sete segundos turnos e um voto presidencial que não acompanha

Vinte governadores definidos, sete segundos turnos e um voto presidencial que não acompanha

Vinte governadores definidos, sete segundos turnos e um voto presidencial que não acompanha

2026-10-07

Quem foi eleito no 1º turno, em que partidos, com que coligações e como isso se compara ao voto para presidente no mesmo estado.

Vinte estados elegeram o governador no 1º turno; sete (RN, AM, AC, ES, RJ, TO e DF) vão ao 2º turno em 25 de outubro, no mesmo dia do presidencial. Entre os 20 eleitos, o PL tem cinco governadores, o PSD quatro, o PT e o Republicanos três cada, o PP dois, e PSDB, Podemos e MDB um cada.

A presença de PT e PL nas coligações

Dos 20 eleitos, cinco têm o PT na coligação (PI, BA, CE, SE e PB, todos no Nordeste), dez têm o PL (AL, PA, AP, SP, RS, MS, PR, RO, SC e RR) e cinco não têm nenhum dos dois (MA, PE, MG, GO e MT). A coligação é a lista de partidos registrada no TSE; não mede apoio declarado a nenhum presidenciável.

Dez estados de Lula, dez de Flávio

Entre os 20 eleitos, dez estão em estados em que Lula lidera o voto presidencial e dez em estados em que Flávio lidera. Nos dez estados de Lula, só três elegeram governador do PT (PI, BA e CE); os outros sete elegeram PSD (MA, PE, SE e AP), PP (PB), PSDB (AL) e Podemos (PA). Dos dez estados de Flávio, sete elegeram governadores com o PL na coligação; GO, MG e MT elegeram governadores sem PT nem PL.

Dois casos para olhar

  • Maranhão: Lula teve 64,0% e Flávio, 30,9%. O governador eleito, Eduardo Braide (PSD), teve 54,0% sem PT nem PL na coligação, contra Orleans Brandão (MDB), com 34,8%.
  • Pernambuco: Lula teve 63,5%. Raquel Lyra (PSD) foi eleita com 53,3% sobre João Campos (PSB), que teve 44,8% e o PT na coligação.

Nos dois, o voto presidencial majoritário em Lula não se traduziu em governador de partido de esquerda. Nos dois, o eleito é do PSD.

Eleições apertadas e vitórias na margem

Em Alagoas, JHC (PSDB) teve 52,2% contra 47,4% de Renan Filho (MDB). No Pará, Dr. Daniel (Podemos) teve 51,4% e Hana Ghassan (MDB), 46,5%. No Ceará, Elmano de Freitas (PT) teve 53,2% e Ciro Gomes (PSDB), 46,2%. No Paraná, Sergio Moro (PL) teve 50,1% numa disputa com vários candidatos, e o segundo colocado, Sandro Alex (PSD), teve 25,4%. Do outro lado, houve vitórias folgadas: Piauí (Rafael Fonteles, PT, 70,9%), Roraima (Arthur Henrique, PL, 69,1%), Santa Catarina (Jorginho Mello, PL, 69,0%).

Os sete segundos turnos

EstadoLíder no 1º turnoDesafianteDiferença (votos)
RNAllyson (União) 36,94%Cadu de Lula (PT) 36,16%15.509
TODorinha (União) 45,52%Vicentinho Júnior (PSDB) 43,94%13.412
AMOmar Aziz (PSD) 40,63%Maria do Carmo (PL) 24,49%334.511
DFCelina Leão (PP) 49,93%Leandro Grass (PT) 34,47%255.600
ACMailza Assis (PP) 49,76%Alan Rick (Republicanos) 32,27%76.901
ESPazolini (Republicanos) 49,65%Ricardo Ferraço (MDB) 34,06%329.236
RJDouglas Ruas (PL) 49,27%Eduardo Paes (PSD) 42,76%564.215

O Rio Grande do Norte e Tocantins são os mais apertados: uma diferença de 15.509 votos entre 534.559 votos de eliminados no RN e de 13.412 entre 89.521 no TO. Em ambos, o desafiante precisa captar pouco mais da metade dos votos dos eliminados (51,5% no RN e 57,5% no TO) para igualar, supondo que todos votem num dos dois. No Distrito Federal, no Acre, no Espírito Santo e no Rio de Janeiro, o líder ficou perto de 50% e o desafiante precisaria captar de 90,8% a 99,6% dos eliminados. No Amazonas, 73,1%. No Rio de Janeiro, 274.411 votos de Garotinho estão sub judice, e a decisão da Justiça Eleitoral pode mexer nos percentuais.

Efeito no Senado

Dois senadores com mandato até 2031 foram eleitos governadores: Sergio Moro (PL, PR) e Cleitinho (Republicanos, MG). Se Dorinha (União) vencer em Tocantins, a cadeira dela também passará a um suplente. A composição do Senado, em número de cadeiras, não muda; o partido de cada suplente pode mudar. Isso é assunto do texto sobre o Congresso.


Para explorar os números: a página Governadores do site Apuração 2026 traz as tabelas completas, gráficos e controles. Dados do TSE (resultado do 1º turno de 04/10/2026, 100% das seções); análises calculadas a partir deles. Texto de 07/10/2026.

25 de outubro: o que precisaria acontecer para o 2º turno virar

25 de outubro: o que precisaria acontecer para o 2º turno virar

25 de outubro: o que precisaria acontecer para o 2º turno virar

2026-10-07

Uma conta simples sobre os 9,3 milhões de votos dos candidatos eliminados, com os números do simulador. Não é previsão.

Partindo do resultado final do 1º turno, a vantagem de Flávio Bolsonaro sobre Lula é de 2.224.965 votos. Os candidatos eliminados somam 9.316.747 votos. A pergunta mais útil para o 2º turno é quanto desse bloco precisaria migrar, e em que direção, para a diferença mudar de sinal. O simulador do site faz essa conta; abaixo, o que ela mostra.

O ponto de empate

Se todos os eleitores dos eliminados votassem num dos dois finalistas, Lula precisaria de 61,9% deles para igualar. Se só 80% votassem, a fração sobe para 64,9%; se 60%, para 69,9%. Esse cálculo supõe que quem votou em Lula e em Flávio no 1º turno repete o voto e que ninguém mais comparece. Como os eleitores de Cury, Caiado, Renan Santos e Zema vieram de campos diferentes, uma fração tão alta e tão uniforme seria uma exigência pesada.

Os três cenários do simulador

CenárioEliminados que vão para LulaPara FlávioMargem finalLula nos válidos dos dois
A · eliminados pendem a Flávio12,6%63,0%Flávio +6.912.96547,05%
B · base21,1%52,5%Flávio +5.149.12747,80%
C · eliminados pendem a Lula30,6%42,2%Flávio +3.312.41448,58%

Nos três, Flávio continua à frente. Isso acontece porque, mesmo no cenário C, uma parte maior dos eliminados vai para Flávio do que para Lula, e o restante se abstém, vota em branco ou anula. No cenário base, Lula lidera em 11 estados (12 no 1º turno): o Amapá muda de lado. Para virar a partir do cenário base, seria preciso que 27,6 pontos percentuais dos votos dos eliminados passassem de Flávio para Lula. Cada ponto percentual que muda de lado altera a margem em 186.335 votos.

Mobilização adicional ajuda?

No simulador, trazer mais eleitores às urnas não resolve: cada milhão de novos votantes muda a margem em apenas 20.230 votos (no cenário base), com os novos votantes distribuídos como os atuais. Mesmo com Lula a 49% entre eles, a conta não fecha. A razão é a mesma do texto sobre participação: os ausentes estão onde Flávio é mais forte.

Onde a virada seria possível: quatro estados

A tabela de empate por estado mostra, para cada um, que fração dos eleitores eliminados o desafiante local precisaria captar. Só em quatro estados a conta fecha abaixo de 100%:

EstadoLíder no 1º turnoMargem (votos)Fração necessária dos eliminados
AmapáLula22550,3%
AmazonasLula70.23273,9%
Minas GeraisFlávio588.61279,1%
ParáLula263.28098,4%

No Amapá, a diferença de 225 votos basta para que o estado mude de lado no cenário base. Em Minas Gerais, a fração (79,1%) é alta mas não impossível, e o estado concentra 1.009.751 votos de eliminados. Nos 23 estados restantes, nem a totalidade dos votos dos eliminados bastaria ao desafiante.

Como usar

O simulador permite alterar, por candidato eliminado, a fração que vai para cada finalista, a retenção dos eleitores de Lula e Flávio e o comparecimento adicional. Os números acima são os de três cenários prontos, e cada um é uma hipótese, não um palpite sobre o que vai acontecer. Pesquisas, declarações de apoio e a mudança de comparecimento entre turnos não entram, a não ser pelos controles explícitos.


Para explorar os números: a página Segundo turno do site Apuração 2026 traz as tabelas completas, gráficos e controles. Dados do TSE (resultado do 1º turno de 04/10/2026, 100% das seções); análises calculadas a partir deles. Texto de 07/10/2026.

33,5 milhões de ausentes: quem não votou e quanto isso pesaria no 2º turno

33,5 milhões de ausentes: quem não votou e quanto isso pesaria no 2º turno

33,5 milhões de ausentes: quem não votou e quanto isso pesaria no 2º turno

2026-10-07

Abstenção, brancos, nulos e voto cruzado no 1º turno de 2026, e uma simulação do que mudaria se mais gente comparecesse.

O eleitorado apto era de 158.745.502 pessoas; 125.275.835 compareceram (78,92%). A abstenção foi de 33.469.667 (21,08%). Votaram em branco 2.300.798 pessoas (1,84% do comparecimento) e anularam 3.669.003 (2,93%). Branco e nulo são escolhas de quem foi à urna; a abstenção é outra coisa, e as duas não se comparam.

Onde estão os ausentes

A abstenção vai de 15,5% no Ceará a 23,9% em Mato Grosso do Sul; nove dos 27 estados ficam acima da média nacional. Por região:

RegiãoEleitoradoAbstençãoAbstentosBrancos e nulos
Norte13.101.06619,4%2.546.4863,4%
Nordeste43.509.68318,4%8.002.0585,1%
Centro-Oeste12.000.63221,7%2.604.6313,3%
Sudeste66.341.87822,7%15.062.9525,5%
Sul22.869.67720,5%4.677.8633,8%

O Sudeste tem a maior taxa e, sozinho, cerca de 45% de todos os abstentos do país (15 milhões de 33,5 milhões). É a região em que Flávio tem vantagem de 5,7 milhões de votos.

Abstenção e voto em Lula: uma associação entre estados

Nos estados em que Flávio lidera, a abstenção média (ponderada pelo eleitorado) foi de 22,0%; onde Lula lidera, 18,6%. A correlação entre a abstenção e o percentual de Lula nos 27 estados é de −0,51: em média, cada ponto percentual a mais de abstenção se associa a 3,4 pontos a menos de Lula. É uma relação entre estados. Não mostra como cada eleitor ausente votaria.

Flávio 47,03%, Lula 45,16%: o que a geografia do 1º turno diz sobre o segundo turno

Flávio 47,03%, Lula 45,16%: o que a geografia do 1º turno diz sobre o segundo turno

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2026-10-07

Uma leitura dos 119,3 milhões de votos válidos do 1º turno presidencial de 2026, por região, estado e candidato eliminado.

Foram 119.300.788 votos válidos no 1º turno. Flávio Bolsonaro recebeu 56.104.503 (47,03%); Lula, 53.879.538 (45,16%). A diferença é de 2.224.965 votos, ou 1,87 ponto percentual. Os números estão nos arquivos públicos do TSE; o que segue é uma leitura deles, e não uma previsão.

Dois candidatos, 92% dos votos

Lula e Flávio somam 92,19% dos válidos. Os outros candidatos ficaram com 9.316.747 votos (7,81%). O número efetivo de candidatos, que mede quantos candidatos de tamanho igual dariam a mesma concentração de votos, é 2,34: um 1º turno quase bipolar, com uma cauda que importa porque é ela que está em disputa agora.

A conta regional fecha assim

RegiãoLulaFlávioMargem em votos
Nordeste63,8%30,9%Lula +11.095.611
Sudeste39,7%51,4%Flávio +5.662.211
Sul31,3%60,1%Flávio +5.042.624
Centro-Oeste32,6%56,5%Flávio +2.170.393
Norte44,6%49,2%Flávio +458.835
Exterior47,6%43,5%Lula +13.487

Flávio vence em quatro regiões e a soma da vantagem delas é de 13,3 milhões de votos. O Nordeste devolve 11,1 milhões. O saldo de 2,2 milhões é o que sobra dessa subtração. Flávio lidera em 15 estados; Lula, em 12. Os extremos são Piauí (Lula 71,0%, Flávio 24,1%) e Roraima (Flávio 71,1%, Lula 22,9%).

Os estados no fio

O Amapá terminou empatado em 45,7% para cada um, com uma diferença de 225 votos a favor de Lula. Em Minas Gerais, o segundo maior colégio, com 11.976.235 válidos, Flávio teve 48,2% e Lula, 43,3%. No Amazonas, Lula lidera por 3,2 pontos; no Pará, por 5,4; no Tocantins, Flávio lidera por 7,0. São estados em que uma pequena mudança de comportamento altera o vencedor local, embora tenha pouco efeito no total nacional (o simulador do 2º turno trata disso).

Onde a fragmentação é maior

O número efetivo de candidatos varia de 1,78 no Piauí a 2,50 em Goiás. A fragmentação é maior onde a soma de Lula e Flávio é menor, e Goiás é o exemplo: Ronaldo Caiado teve 12,3% dos válidos no estado, seu melhor resultado. Piauí e Roraima, os dois polos da polarização, são os estados em que sobra menos espaço para um terceiro nome.

Quem ficou de fora: 9,3 milhões de votos

CandidatoVotos% dos válidosMaior percentual% dos votos no Sudeste e Sul
Augusto Cury (Avante)3.448.5692,89%AP 4,1%62%
Renan Santos (Missão)2.675.8872,24%SP 3,2%67%
Ronaldo Caiado (PSD)2.605.1482,18%GO 12,3%56%
Zema (Novo)326.4880,27%MG 0,8%84%

A geografia desses votos não ajuda a adivinhar o destino deles. O percentual de Renan Santos acompanha a margem de Flávio entre os estados (correlação de 0,51): ele foi melhor onde Flávio é mais forte. Para Caiado e Zema a correlação é baixa (0,27 e 0,32), e para Cury é quase nula (0,12). Descrever onde esses eleitores votaram no 1º turno não é medir para onde irão no 2º.

Brancos e nulos

Foram 2.300.798 votos em branco (1,84% do comparecimento) e 3.669.003 nulos (2,93%), 4,8% no total. A proporção é mais alta na Paraíba (6,3%), em Alagoas (6,2%) e em São Paulo (5,9%), e mais baixa em Roraima (2,2%). Esses votos não entram no cálculo do percentual dos candidatos.

O que esperar da leitura

O 1º turno descreve um país em que a margem nacional vem de uma subtração entre regiões grandes e opostas. Qualquer mudança no 2º turno virá de três lugares: da migração dos 9,3 milhões de votos dos eliminados, da retenção de quem votou nos dois finalistas e de quem comparecer a mais ou a menos. Os outros textos desta série tratam de cada um.


Para explorar os números: a página Perfil do voto do site Apuração 2026 traz as tabelas completas, gráficos e controles. Dados do TSE (resultado do 1º turno de 04/10/2026, 100% das seções); análises calculadas a partir deles. Texto de 07/10/2026.